quinta-feira, 6 de maio de 2010

Em Modo Extra Sensível

Ontem chegaram os móveis do quartinho da nossa filha. Foi a primeira coisa que fiz quando cheguei do trabalho: ir pro quartinho dela. Era um quarto de bebê, todo branquinho, com cortininha, berço, armário, trocador. Antes era um quarto de tevê, local provável de sua concepção; antes, ainda, era um escritório; antes, mais ainda, era um quartode hóspedes, quando não tudo isso junto - mas agora: quarto de bebê. Minha filha tem onde dormir quando meu útero já não lhe servir mais. Mal sabia eu que aquele quartinho todo pronto, todo virgem, me traria a maior onda de sensibilidades desde que soube que estava grávida.

Tomei um banho e catei todas as coisinhas dela, até então armazenadas num gavetão. Coloquei Joanna Newsome no som - quase cantiga de ninar - e levei-as pro quartinho. Mal abri a primeira sacola de roupinhas e comecei a chorar. Chorei muito, precisei parar o que estava fazendo. Não era choro de felicidade, posto que felicidade é o meu estado natural já há muito tempo, especialmente desde que fiquei grávida; e é lógico que não era choro de tristeza. Era choro de emoção pura, de milhares de significados que se concretizavam diante dos meus olhos dentro daquele cômodo renovado. Naquele exato momento eu me despedia de uma parte minha e era apresentada para outra, totalmente nova.

Pela primeira vez desde que eu saí da casa da família, há doze anos e meio, havia um pedaço do apartamento interiamente dedicado à outra pessoa. À outra pessoa que é a minha filha. Que ainda é totalmente dependente de mim, e continuará sendo quando sair da minha barriga, e estará sempre à minha espera. Pela primeira vez percebi com toda profundidade que os meus dias de livre-senhora-de-mim terminaram, e de repente me senti tão pequenina como a bebéia que estou gestando, completamente desamparada, mínima diante da enormidade disso tudo.

Escrever um texto para explicar o que houve é na verdade uma inutilidade, já que o que houve não cabe à lógica nem ao pensamento que as palavras exigem. O mais próximo que consigo chegar é à analogia de um jorro incessante de emoções muito profundas.

Aos poucos, e sempre às lágrimas, fui desembrulhando cada presente, separando cada cartãozinho de felicitações. Era hora de guardar aquelas coisas no armário, na cômoda, nos gaveteiros, mas eu não sabia como fazer. Eu não sabia. Dona de casa e dona de mim há tantos anos, e eu não sabia. Pensei em ligar para minha mãe e pedir ajuda, mas que ajuda? O que é que eu não sabia sobre dobrar e guardar roupas?

É que não eram roupas, eram roupinhas...

E eu olhava pras roupinhas e não sabia o que fazer. Pensava que não sabia se deveria pendurar num cabide ou guardar numa gaveta, se deveria colocar os sapatinhos perto das faixas de cabelo. Mas na verdade não era isso. Nunca é isso. Minha falta de traquejo era, na verdade, uma denúncia sobre minha completa falta de experiência sobre a coisa mais importante que está para acontecer na minha vida. Pequenas coisas, como onde guardar a roupinha do bebê, nunca são um verdadeiro problema. Pequenas coisas apenas apontam para uma questão muito maior.

Então abracei a minha mãe-bebê, tão nua e inexperiente, à qual eu acabara de ser apresentada. Coloquei-a no colo no caminho entre o quartinho e a sala - no caminho entre o novíssimo e o tão conhecido - e deixei-a sentir.

Mães, em primeiro lugar, sentem. Eu nunca senti assim. Pra mim, foi a melhor novidade da vida. Mesmo o marido, eu o percebi melhor quando chegou em casa.

Ontem caiu uma ficha de ouro no meu coração.