Culpa é um negócio que acontece mais com as mulheres do que com os homens, e talvez mais com as mães do que com mulheres sem filhos. Inflingir culpa é uma forma de controlar o outro, mesmo sem querer. Talvez por causa da imensa responsabilidade inerente à maternidade, as pessoas se sentem no direito de dar conselhos e emitir opiniões diversas às mães, fazendo muitas delas acreditarem que não estão desempenhando direito o papel e se sentirem muito mal por isso.
Embora seja tão simples de compreender, este desabafo, escrito por uma moça em muitos aspectos parecida comigo - faixa etária, classe social, estilo - me deixou um pouco chocada. Ela diz que o verdadeiro castigo de Deus para as mulheres não é a dor do parto, mas a culpa - exatamente porque, diante de tantos conselhos de terceiros, ela tem se sentido tão confusa como futura mãe. Não sei se é a primeira gravidez dela, mas afirmar que a culpa pode ser maior do que a dor de um parto é, assim, extremo para mim. Embora sua felicidade com a gravidez seja clara em seus outros textos, também ficou claro que parte dessa moça está muito vulnerável às expectativas alheias sobre sua própria maternidade.
Meu choque também se deve ao fato de que minha relação com esse meu novo papel de mãe está sendo caracterizada por sentimentos bem diferentes da culpa. É possível que eu sinta mais tarde, quando, ao começar a fazer suas próprias escolhas, minha filha tome decisões erradas! Daí não tem jeito, vou acabar questionando todas essas subjetividades parentais que influenciam a vida dos filhos. Mas por enquanto? Não, não mesmo. Apesar de toda vigia que naturalmente recai sobre a minha barriga, de todos os conselhos e dicas de alimentação ou exigência de boa forma e saúde, de profecias sobre o inferno que se fará quando o bebê nascer e as noites de sono morrerem, além do perigo que poderá se abater sobre meu casamento,- apesar de tudo isso, e mais do que nunca, a opinião dos outros decresceu muito em importância para mim.
Digo isso sob pena de ser mal interpretada, mas é verdade. É como se instintivamente eu soubesse que a opinião dos outros pode me tirar do meu centro - e o meu centro é fundamental agora. Eu jamais imaginei, mas minha auto-confiança cresce na mesma medida em que cresce minha barriga. No topo das sensações mais definitivas que vieram com a gravidez está uma enorme sensação de força e estabilidade, a despeito de todas as dúvidas e rompantes de emoção e inexperiência que há meses me acompanham.
Acho que a palavra "poder", despida de qualquer conotação perniciosa, define bem o que quero dizer. Ao contrário do sempre triste discurso cristão que essa futura mamãe evocou, acredito que Eva é, na verdade, a Toda-Poderosa, e não a pecadora condenada à dor e ao sofrimento. A mulher, e não Deus, é o ser capaz de dar a vida - como não creio em Deus, isto é duplamente verdadeiro para mim. E tão grande quanto o poder da mulher é o poder do próprio embrião-feto-bebê: cada vez que faço um ultrassom, fico estarrecida com a vontade de triunfo, a potência da minha bebéia ainda tão mínima, mas tão resoluta na tarefa de crescer e sair pro mundo!
Este é o mistério da dor do parto: a vida chega com tanta potência que ela sai rasgando tudo!
Embora seja tão simples de compreender, este desabafo, escrito por uma moça em muitos aspectos parecida comigo - faixa etária, classe social, estilo - me deixou um pouco chocada. Ela diz que o verdadeiro castigo de Deus para as mulheres não é a dor do parto, mas a culpa - exatamente porque, diante de tantos conselhos de terceiros, ela tem se sentido tão confusa como futura mãe. Não sei se é a primeira gravidez dela, mas afirmar que a culpa pode ser maior do que a dor de um parto é, assim, extremo para mim. Embora sua felicidade com a gravidez seja clara em seus outros textos, também ficou claro que parte dessa moça está muito vulnerável às expectativas alheias sobre sua própria maternidade.
Meu choque também se deve ao fato de que minha relação com esse meu novo papel de mãe está sendo caracterizada por sentimentos bem diferentes da culpa. É possível que eu sinta mais tarde, quando, ao começar a fazer suas próprias escolhas, minha filha tome decisões erradas! Daí não tem jeito, vou acabar questionando todas essas subjetividades parentais que influenciam a vida dos filhos. Mas por enquanto? Não, não mesmo. Apesar de toda vigia que naturalmente recai sobre a minha barriga, de todos os conselhos e dicas de alimentação ou exigência de boa forma e saúde, de profecias sobre o inferno que se fará quando o bebê nascer e as noites de sono morrerem, além do perigo que poderá se abater sobre meu casamento,- apesar de tudo isso, e mais do que nunca, a opinião dos outros decresceu muito em importância para mim.
Digo isso sob pena de ser mal interpretada, mas é verdade. É como se instintivamente eu soubesse que a opinião dos outros pode me tirar do meu centro - e o meu centro é fundamental agora. Eu jamais imaginei, mas minha auto-confiança cresce na mesma medida em que cresce minha barriga. No topo das sensações mais definitivas que vieram com a gravidez está uma enorme sensação de força e estabilidade, a despeito de todas as dúvidas e rompantes de emoção e inexperiência que há meses me acompanham.
Acho que a palavra "poder", despida de qualquer conotação perniciosa, define bem o que quero dizer. Ao contrário do sempre triste discurso cristão que essa futura mamãe evocou, acredito que Eva é, na verdade, a Toda-Poderosa, e não a pecadora condenada à dor e ao sofrimento. A mulher, e não Deus, é o ser capaz de dar a vida - como não creio em Deus, isto é duplamente verdadeiro para mim. E tão grande quanto o poder da mulher é o poder do próprio embrião-feto-bebê: cada vez que faço um ultrassom, fico estarrecida com a vontade de triunfo, a potência da minha bebéia ainda tão mínima, mas tão resoluta na tarefa de crescer e sair pro mundo!
Este é o mistério da dor do parto: a vida chega com tanta potência que ela sai rasgando tudo!