Eis que finalmente trascrevo o trecho do livro do Léboyer, que despertou algumas das sensações maternais mais intensas que pude sentir desde a concepção da minha bebéia.
Faço esta transcrição com a cabeça no sobrinho de uma grande amiga, que nasceu ontem em NY!
Faço esta transcrição com a cabeça no sobrinho de uma grande amiga, que nasceu ontem em NY!
No ventre da mãe, a vida era uma riqueza infinita.
Sem falar nos sons e nos ruídos, para a criança todas as coisas estavam em constante movimento.
Se a mãe se erguer e andar,
se ela se virar ou inclinar-se
ou erguer-se na ponta dos pés.
Se ela debulhar legumes ou usar uma vassoura,
quantas ondas,
quantas sensações para a criança.
E se a mãe for descansar,
pegar um livro e sentar-se,
ou se deitar e adormecer,
sua respiração será sempre a mesma
e o marulho calmo - a ressaca - continua a embalar o bebê.
Depois,
passada a tempestade do nascimento,
eis a criança sozinha no berço,
ou melhor dizendo, numa dessas caminhas que são como gaiolas de recém-nascidos.
Nada se mexe!
Deserto.
E o silêncio
Repentinamente, o mundo ao redor congelou-se,
coagulou-se,
numa imobilidade completa e terrível.
E,
enquanto lá fora faz-se completo vazio,
eis que aqui dentro
alguma porção no ventre agarra
torce
morde...
"Mamãe! Mamãe!"
Ah, que pavor!
No ventre?
Não,
ali na escuridão!
Sim, no escuro
há um animal.
Sim, sim, um tigre, um leão...
"Eu o escuto! Eu o percebo!
Mamãe! Mamãe!"
Um animal? Na escuridão?
Prestes a saltar sobre a criança para devorá-la?
Um lobo, talvez?
Um lobo transformado em avó
e que espreita Chapeuzinho Vermelho
preparando-se para devorá-lo?
Um lobo?
Onde?
Na cama? Embaixo da cama?
Atrás do biombo?
Não!
Está bem ali no ventre.
E se chama
fome.
A fome é um monstro?
A fome é a sensação agradável. Não é verdade? Porque, de fato, com muita satisfação, a vemos repetir-se várias vezes por dia.
Para nós,
uma agradável satisfação.
Porque nós sabemos muito bem que iremos comer.
E para a criança?
O pobre bebê pode movimentar-se?
Deslocar-se até a despensa?
Como se estivesse no restaurante, pode ele gritar:
"Garçom! Garçom!"?
Ele não se cansa de chamar. E, realmente, com toda a força.
Ele berra
para mostrar que lá dentro...
E... não acontece nada!
É preciso esperar.
E sofrer.
E se inquietar... com o desassossego.
Até que, finalmente, do deserto interior em que o mundo se fez,
vem alguma coisa
que por fim aquieta
o monstro desperto lá dentro.
Fora, dentro...
Eis o mundo dividido em dois.
Dentro, a fome.
Fora, o leite.
Nasceu
o espaço.
Dentro, a fome
fora, o leite.
E, entre os dois,
a ausência,
a espera,
sofrimento indizível.
E que se chama
tempo.
E é assim
que, tão-somente
do apetite,
nasceram
o espaço
e a existência.
Obrigado querido amigo!