O corpo é uma arena de conflitos na maioria das culturas; no ocidente, a apreensão sobre o corpo afeta especialmente as mulheres. Surpreendentemente, a medida em que, no decorrer do século XX, as correntes afrouxaram em relação ao recato (saias mais curtas, decotes mais abertos) e à sexualidade (o fim da virgindade como obrigação moral, a exploração do prórpio prazer), elas apertaram como nunca em relação à sua forma. A mulher estava livre para usar biquíni e buscar seus orgasmos - mas não sem pagar o preço da obediência a um padrão quefreqüentemente destrói sua auto-estima. Que liberação feminina é essa, que de um lado dá e do outro tira?
É lógico que não se trata de um plano conscientemente arquitetado por um punhado de misóginos da Wall Street. São movimentos de subjetividade coletiva, muito amplos, administrados por todos nós, que denunciam nossa extrema dificuldade em lidar com o corpo, em especial com o da mulher. Agora que estou grávida, e sou principalmente corpo, estou bem mais sensível a essas questões.
Contudo, curiosamente, de uma maneira positiva. De repente minhas formas generosas, que ao longo dos últimos anos passei a amar e respeitar muito mais, começam a fazer sentido real. Meus seios aumentados por tanto hormônio se preparam para alimentar o bebê que eu estou gerando. Minha barriga fofinha, que aparenta uma idade gestacional ligeiramente maior que a atual, o guarda e protege. Minhas pernas grossas vão sustentar a maior revolução que já se passou no meu organismo.
Os significados do meu corpo feminino são completamente outros, a despeito dos olhares de aprovação ou estranhamento da família, dos amigos ou de estranhos. Isso é muito libertador! E me leva a pensar que a rudeza da exigência de perfeição só existe quando esvaziamos o corpo de significados.
Alguma hora minha gravidez vai se encerrar com o nascimento do meu filho e vou trabalhar para que meu corpo volte tão próximo de sua forma anterior quanto possível, mas acima de tudo: espero muito não perder esse novo olhar adquirido sobre ele. Porque o jeito como me olho é o mesmo como olho para os corpos de outras mulheres, e todas nós merecemos um pouco mais de respeito. Merecemos um pouco mais de significado.
Até pouco tempo, celebridades - o bode espiatório das delícias e horrores da condição humana - contavam uma história (e apenas uma) assustadora sobre a maternidade: a do corpo que recupera a forma de uma nulípara, com direito a barriga tanquinho, em menos de dois meses. Até que há pouco tempo surgiu Ivete Sangalo e seu baby weight ainda não eliminado nos palcos do país. A classe média, sempre incomodada, sente-se ultrajada; grávidas diversas que povoam sites de gestantes, no entanto, agradecem aliviadas pelo direito, concedido por Ivete, de aparecer rechonchuda em público por um tempo mais longo do que o determinado pelos editores da revista Boa Forma.